sábado, novembro 19, 2005

24 horas

Um pé no passado, outro no futuro. Um corpo presente de forma fugidia em cenários nem sempre previsíveis. Água benta de afectos, álcool, abraços de embriaguez amarga... O som disfarça, amacia... Café. A queda de um anjo. O desvendar do segredo mais profundo: somos fortes, mas somos frágeis. A inevitabilidade de lágrimas que caem a custo... custo de oportunidade... dor... hipótese de crescimento.
O pensamento desperta de 24 horas intensas de abertura, fecho, receio e coragem perante quem se deu a confiar, desejar e até amar... Por dentro habitam os fantasmas incrédulos com a pureza árida de algumas realidades... Realidades de sonho compensatórias de imagens que não são de filme, mas antes bem reais. A história é esta: era uma vez uma bonita princesa. Trazia no seu rosto uma expressão agradavelmente doce e irrequieta. O castanho dos seus olhos parecia trazer ao mundo novas razões para viver. No seu fundo, no entanto, jazia uma parte de si, uma raiva enquistada, entrecortada por dias bons... Uma dor com rosto, mas sem palavras que a pudessem descrever. Não rebenta.
A explosão não existe. A implosão sim. À décima quinta hora cai desamparada. Caio desamparado. Deixa-se ficar perplexa com a impossibilidade de reagir. Deixo-me ficar perplexo com a impossibilidade de reagir. O controle não mais existe. Estou preocupado. Passado um pouco, levantados do chão. As intermitências da morte, penso, lembrando-me de Saramago... As partes mortas que nos habitam... O rosto volta a ganhar vida, mas desta vez, temeroso, "tenho muito muito medo". O inferno parecia ter subido à terra.
O medo abre a porta ao silêncio. Os seus olhos enviam um pedido de ajuda. O desamparo é profundo. Não há lugar seguro. Está acompanhada mas sente-se profundamente só. Quem nos ajuda?
Nem sempre é fácil deixarmo-nos ajudar mesmo quando necessitamos. A ajuda chegou. "Estamos salvos", ou não... A caminho do hospital mágico(?): "Hoje é um bom dia para morrer." Talvez não fosse.
Vemo-nos numas próximas 24 horas.

1 comentário:

durkheim disse...

Ao ler, lágrimas minhas caíam pelo meu rosto, ao comentar vivo cada segundo das “24 Horas”…
“24 Horas” que mais pareciam 24 dias, 24 semanas, 24 anos… o tempo parece que parou ali, a bonita princesa, a sofrer, os 3 cavaleiros perto dela, não a queriam abandonar nem por um segundo. Um dos cavaleiros ainda presente recorda-se de todas as palavras ditas pela princesa, recorda-se de uma frase da qual nunca se irá esquecer … Esse mesmo cavaleiro abandona-a mais tarde, a pedido da mesma, recorda-se do olhar dela, despede-se com um forte abraço, aquele abraço q ele nunca irá esquecer. No caminho recebe uma ameaça, “cagando” para tal, o jovem cavaleiro apenas se preocupa com a princesa, este impaciente por notícias, telefona, manda mensagens e nenhumas notícias, tudo na mesma… No Hospital Mágico nada se sabia… O tempo parecia ter ali parado…

Passadas duas semanas, mas existe um cavaleiro que nunca se irá perdoar do que aconteceu, poderá passar um dia, um ano, uma vida, este nunca se irá perdoar…