Era uma vez uma menina que vivia num castelo encantado (?). Vivia numa redoma qualquer, feita de um vidro qualquer, de grãos de areia fundido. A menina, com o passar dos anos, tinha-se tornado mulher. Cresceu, cresceu, até que parou de crescer. Tinha encontrado um daqueles bichos papões assustadores que, quando crescemos, só habitam por dentro. Era um bicho que metia muito muito medo. Tinha boca de sapo, olhos de albino e orelhas de burro. O seu corpo era de cabra. Ah! Tinha um longo pescoço de girafa e dedos de humano obeso. Deslocava-se à velocidade da luz, quer dizer, do pensamento. A menina, digo, a mulher, já estava habituada à sua omnipresença. Nunca se esquecia dele. Vivia atormentada por este monstro de orelhas de burro. Não era um monstro bom, como aqueles que os meninos e meninas conhecem, quando se vêem num mundo monstruosamente construído(?). Para todos os lugares a que ela ia, o monstro corria atrás. Pudera! Era um monstro que, por ser tão feio, e de lugar nenhum, não tinha amigos. O único consolo eram os “assustanços” e o acto de fazer a mulher sentir-se como uma menina monstro orelhas de burro de quem ninguém poderia gostar. Era um triste consolo. Mas era um consolo. A mulher já não sabia o que fazer, porque, apesar do pescoço de girafa do monstro ser engraçado, ela não conseguia rir dele. Chorava muito muito muito, sempre que tinha oportunidade. Havia até um pirilampo, seu companheiro de noites escuras, que lhe dizia que era graças a ela que o lago da ilha em que viviam estava sempre cheio, pois já não chovia há muitos anos. O monstro coitado, também não sabia o que fazer, pois cada vez estava mais farto daquela vida. Estavam os dois cansados, o monstro e a mulher, mas não se conseguiam libertar um do outro. Então, como um prisioneiro e a respectiva bola de ferro e sua corrente, arrastavam-se um ao outro. Já não se sabia era quem arrastava quem. A mulher desculpava-se com o monstro de sempre, e ele com a menina mulher orelhas de burro. Eram os dois meninos assustados. O pirilampo sabia disso e, até ele, já estava cansado de tentar iluminar, ora um ora outro, com as suas facetas alternantes. No fundo, eram os dois de lugar nenhum, e em lugar nenhum se encontravam, até hoje. Era esse o seu pacto estupidamente mórbido. O pirilampo decidiu então abandonar a ilha.
A mulher viu-se sozinha na ilha. Durante o dia procurava alimento para subsistir. À noite tremia de medo, porque, pensava ela, o monstro iria infernizá-la para sempre, isto é, até ao dia nascer. Eram noites que pareciam intermináveis, escuras, escuras, muito escuras, tão escuras que, com a inquietação, a mulher começou a andar, sem parar, e perdeu-se no meio da escuridão. Curiosamente, o monstro ficou, ele que tanto metia medo, assustado, pois não sabia onde estava e decidiu ficar calado. Nem afundava os seus pesados pés, nem esticava o seu longo pescoço, nem movimentava as suas orelhas de burro. Da sua grande boca de sapo nem um ruído. A mulher descobriu que ao caminhar poderia libertar-se do monstro, em vez de o arrastar sempre pelos mesmos lugares. Percebeu então que tinha uma luzinha dentro dela, uma espécie de pirilampo agora tornado farol, porque ela já o encontrava em si, que a poderia fazer continuar a crescer. Assim, já poderia descobrir o resto da ilha, em vez de se contemplar, durante dias e noites, ao espelho do lago, vendo-se, sempre, como a menina mulher com orelhas de burro. Afinal ela agora via melhor e decidiu usar todos os seus sentidos, para além da visão. Decidiu, finalmente, sair do seu castelo, descobrir a sua ilha e viver. Descobriu que perto do seu castelo havia uma vila cheia de gente. Umas pessoas eram bonitas, outras eram muito feias. Viu coisas fantásticas e coisas hediondas. Mas ela já tinha aprendido que o “inferno somos nós”. E recomeçou a crescer.