sábado, dezembro 16, 2006
"Eu não sei tanto sobre tanta coisa".
Sei que o Natal está quase aí. Presentes. Alguns ausentes.
Sei que continuo num caminho por mim construído, mas não sei onde vou parar.
Sei que conduzo os meus destinos entre sabores e dissabores.
Sei que conheço cores e pretos e brancos, sonhos cálidos e alguns perturbadores.
Sei que sinto vontade de nomear quase todo o meu mundo, o interno e o externo.
Sei que sem sempre sei fazer isso.
Sei que gosto de ti...
quarta-feira, novembro 22, 2006
Optimista céptico
Eu já estou farto das fotografiasque me querem vender todos os dias
os legionários mais os seus troféus
no chão a sangrar
Não posso mais olhar para aquela imagem
parece que é sempre a mesma paisagem
a hipocrisia deste novo império
faz-me vomitar
Por isso eu tornei-me um optimista céptico
não sou bem igual ao céptico opti-místico
só quero encontrar paz
sem arrastar atrás nem mestre nem Deus
Já temos a informação cruzada
empacotada e globalizada
agora só nos falta a convicção
para acreditar
Há assassinos que não se arrependem
há tantos pensadores que nunca aprendem
e há quem insista sempre em aprender
mas não quer pensar
Por isso eu tornei-me um optimista céptico...
Gostava de ser ecologista exótico
sem perder de vista o meu perfil erótico
Ainda vou ser ilusionista crónico
um mestre da fuga, um mago supersónico
(Jorge Palma)
domingo, outubro 08, 2006
Le miroir en compagnie de la mémoire
O tempo passa. "Já lá vão 8 anos", alguém afirma. Mas o tempo faz parte de mim, penso. Assim como todas aquelas pessoas importantes que ficam bem dentro, lá dentro, na caixinha dos meus afectos. Os sons mudaram, um pouco. Os cheiros mantêm-se. Reencontro sorrisos de algumas pessoas. Outros sorrisos perderam-se, provavelmente - ou não - para sempre.
E, nessas alturas, entre o bar da praia, o bar do cinema, o bar do snooker, o bar do inglês, o bar do Sr. João, figuram-se, em jeito de imagens mentais, recordações e evocações de um passado distante mas familiar. Mémoires.
Já passaram alguns anos desde que decidi partir.
O espelho da memória... Le miroir en compagnie de la mémoire... Dance with me. Encontro-me. Reconheço-me. Em mim, nos outros que me fazem cantar alegremente num lugar qualquer, meu, deles, do mundo - com essas pessoas queridas que nos podem quase compreender (Freud afirmou um dia, aos setenta anos, que uma das coisas que o deixavam contente com a vida era o facto de ter conhecido algumas pessoas que quase o compreenderam...) porque a natureza do que sentimos é profundamente íntima.
O teu mundo? O meu mundo? Os nossos mundos?
sexta-feira, outubro 06, 2006
Em toda a parte

quarta-feira, setembro 27, 2006
O tanque
Eram de madeira as escadas que nos levavam para o sótão. No jardim, o tanque, que se transformava em piscina, enchia-se quando o vento soprava e fazia girar o moinho.
Nós passeávamos, às escondidas, entre a recolha de brinquedos de lata - que não eram do nosso tempo e que estavam em sacos de plástico negros no sótão - e os mergulhos na piscina, nas tentativas de escapar à apanha da batata. Dos brinquedos, recordo-me de uma carrinha Volkswagen daquelas que agora os hippies - os que ainda resistem - conduzem pelas estradas do Alentejo e de um desportivo vermelho, que no meu imaginário nos poderia levar, com estilo, para longe dali. Nesse sentido, o longe era perto, como no filme 98 octanas...
Havia um casal de velhotes. A senhora tinha o costume de cozinhar. Avivam-se as memórias: os meus primeiros caracóis, partilhados com pessoas que vinham do campo ou da construção... a dobrada... Comidas de algum modo exóticas para um menino de cidade... O velhote era um senhor daqueles presente ausente.
Recordo-me também de umas estranhas idas ao caixote do lixo, as quais nunca entendi... Encontrávamos coisas engraçadas: uma bola de ténis, um estojo, segmentos de bonecos. Uma vez até encontrámos um boneco inteiro - seria o snoppy? A minha ideia é que talvez ali fosse o local onde o pai natal dos pobres deixaria os seus presentes... Os velhotes levavam-nos de carro até lá... Vínhamos de avião, se no caixote tivéssemos encontrado asas...
Final de tarde, o tanque de betão chamava de novo. Íamos para lá. A água estava quase sempre fria. Às escondidas mergulhávamos. "Vão descobrir que andámos de novo por aqui", pensávamos. No final de contas, era impossível chegarmos secos à casa.
"Onde é que tu andaste? Já te disse que não te quero sozinho no tanque!"
(silêncios...)
A verdade é que ainda hoje me pergunto como era possível que nunca tivessem entendido que andava acompanhado pela minha solidão...
sexta-feira, setembro 22, 2006
amigos para as boas ocasiões
quarta-feira, agosto 30, 2006
Amores perfeitos
Felizmente não somos flores. Temos sentidos e instrumentos para abraçar o mundo de maneira diferente daquela dos habitantes floridos. Com o corpo animado (anima vem do grego e significa alma) pelos seus ritmos, emoções e pensamentos...
terça-feira, agosto 08, 2006
Destinos
sexta-feira, julho 14, 2006
A viagem continua
quarta-feira, julho 12, 2006
Ci vuole un fisico bestiale
per fare quello che ti pare
perché di solito a nessuno
vai bene così come sei
Tu che cercavi comprensione sai
ti trovi lì in competizione sai

Ci vuole un fisico bestiale
per resistere agli urti della vita
a quel che leggi sul giornale
e certe volte anche alla sfiga
Ci vuole un fisico bestiale sai, speciale sai
anche per bere e per fumare
Ci vuole un fisico bestiale
perché siamo sempre ad un incrocio
sinistra, destra oppure dritto
il fatto è che è sempre un rischio
Ci vuole un attimo di pace
di fare quello che ci piace
E come dicono i proverbi
e lo dice anche mio zio
mente sana in corpo sano
e adesso son convinto anch'io
Ci vuole molto allenamento
per stare dritti controvento
Ci vuole un fisico bestiale
per stare nel mondo dei grandi
e poi trovarsi a certe cene
con tipi furbi ed arroganti
Ci vuole un fisico bestiale sai, speciale sai
può anche fare molto male sai
Ci vuole un fisico bestiale
e siamo tutti un po' malati
ma siamo anche un po' dottori
E siamo tutti molto ignoranti sai
ma siamo anche un po' insegnanti sai
Ci vuole un fisico bestiale ...
perché siam barche in mezzo al mare
Luca Carboni, 1992
sexta-feira, junho 23, 2006
Espécie de Vampiro
Eu não sou aquele que beijas
Sou um mero pesadelo ou fantasia
Eu sou muito mais que velho
Intimido qualquer espelho
Sou o amigo mais funesto da poesia
Sou um tipo de morcego
Que é completamente cego
Embora às vezes seja fã do Fritz Lang
Sou uma espécie de vampiro
E quando sobre ti me atiro
É para saborear um pouco do teu sangue
Só para beber gota a gota o teu sangue
Tu não sabes donde venho
Dás conversa a qualquer estranho
E ainda vais beijar-me os lábios docemente
Não confias nos teus pais
E acreditas que os jornais
Só relatam as verdades de outras gentes
Sou um tipo de morcego..."
Jorge Palma
quarta-feira, maio 17, 2006
Caminhos
Ontem reencontramo-los e sorrimos.
A berma de que nos falaram é, para nós, uma casa abrigo especial de momentos, afectos, partilha, encontros... Enfim, vivências floridas mais ou menos imperfeitas onde podemos dizer que fomos/somos/seremos felizes. Ser, o verbo. A palavra expressa na direcção de um sentido faz toda a diferença.
Na dança, por exemplo, o que se é? O que se faz? Sonha-se? Existe-se apenas? Respira-se o tão desejado pó de estrelas? Acontecerá o cruzamento do homem e da mulher com a cultura, o terceiro? Registar-se-á, num passo bailado, a assinatura individual e colectiva de pertença a um elemento libertador e integrativo partilhado transcontinentalmente? Será que se reavivam os momentos ritmados de encontro da relação precoce? Será que, catarticamente, dançar nos torna mais fortes? Será que é o diálogo/vínculo de quem sonha, de quem vive, que impera? Porque se sente. Há algo transcendental ou, talvez, essencialmente simples... Quase divino. Lembro Fernando Pessoa “Deus quer” - o transcendente; “o Homem sonha”, “o sonho comanda a vida” de António Gedeão - o desejo/encontro na autenticidade; “a Obra nasce”. Toda a Obra. A mais importante de todas: a que se guarda no coração de cada um de nós. Ninguém morre sozinho, afirma Daniel Sampaio. Ninguém vive sozinho, acrescentamos.
domingo, maio 14, 2006
Redundâncias cíclicas
Copio um filme para o computador. Surpreendentemente ou não, a cópia não se efectua. O processo é interrompido pela existência de um erro. Especificação do mesmo: erro de redundância cíclica.
Pois é, nas nossas vidas, nas suas dramatizações mais ou menos histéricas em jeito de teatro, nas suas películas a cores e/ou a preto e branco e nos respectivos guiões que as acompanham encontramos muitos vezes a existência de erros por redundâncias cíclicas. Ora "tudo o que não se resolve repete-se", terá dito Freud - escutei eu através das palavras de um outro... Até nos computadores... um ficheiro copiado com erro, ou seja, mal integrado, quando se pretende a sua reprodução ou utilização de uma parte de si, acontece aquilo a que se chama um erro de tradução que, por sua vez, poderá desencadear uma repetição do encalha. Isto é, aquele que repete ciclicamente e redundantemente o mesmo agir e/ou procedimento de forma ineficaz... Ora o que acontece é que não podemos integrar nos dias de hoje aquela informação com a linguagem de hoje, transformando, no ser humano, experiência e emoção em pensamento. O erro porque passado, da linguagem do ontem e não resolvido, compele ao encrava no hoje... Seguimos Amaral Dias relativamente à questão do recalcamento. Lendo Freud e actualizando o seu texto de 1915 sobre a Repressão, Amaral Dias considera o recalcamento como uma falha de tradução entre camadas mnésicas de situações análogas, entre algo que se passou num determinado momento da vida e algo de semelhante que se passou noutro momento, mantendo a linguagem do ontem no hoje.
De forma pesada talvez, Pedro Paixão escreve em "Nos teus braços morreríamos" que "o passado persegue-nos até à morte". Uma visão do passado como objecto persecutório que gera ameaça, talvez até invocando um sofrimento, uma dor mental intolerável, muito difícil de metabolizar. As linguagens do ontem, mais as linguagens do hoje, anexas às linguagens das relações actuais com os padrões guardados das relações passadas são trazidas ao presente. Deparamo-nos pois, por vezes, subitamente com a constatação de que a capacidade de viver boas experiências e de dotação de sentido do vivido se coloca como uma espécie de realidade frágil e efémera...
Passamos então para a procura de um presente que tolere a linguagem do passado e as suas interferências, as suas rasteiras de regressão e/ou fixação. Abrimos os braços e o coração a pequenas luzes que prometem transformação. Orientamo-nos para um crescimento com aqueles que nos permitem ser somente nós, deixando cada vez mais, aos poucos, cair a máscara difusa e castradora tão útil quando nociva que insistimos em carregar... Crescemos. Aprendemos. Tropeçamos, mas conseguimos evitar as redundâncias cíclicas, pelo menos as mais destrutivas. Parece no entanto que, no momento seguinte, se fica meio perdido... É que o simples nem sempre foi aprendido. Neste sentido, a passagem da coisa à palavra é temida. É bloqueada ao mesmo tempo que desejada. É adiado o mental em detrimento do protomental... Fica qualquer coisa de intermédio à espera de dias melhores...
sexta-feira, maio 12, 2006
Olho para os arranha-céus que circundam a esplanada do meu pensamento. Guardo dentro de mim as cores, os sons, o ritmo dos passos dos personagens que se passeiam… Sonho e internalizo. Vivo. Sinto. Bate o coração…
quarta-feira, maio 10, 2006
Eros e Psiquê

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
terça-feira, maio 02, 2006
Estranha forma de vida
sexta-feira, março 17, 2006
Desejos

quinta-feira, março 02, 2006
A ilusão da abundância
Ao limitar a liberdade individual ao fócus do consumo com vista a um (pseudo) preenchimento externo e também interno(!) ficámos com um mar de coisas, de objectos materiais à nossa volta que nos preenchem... Mas preenchem? A nós parece-nos que esta espécie de coleccionar cromos em múltiplas cadernetas na ânsia de nos realizarmos com valores meramente materiais é de todo muito pouco saudável. Saúde precisa-se!
O preenchimento consumista parece culminar então numa via de mortificação e aparentemente paradoxal: “estamos tão cheios de coisas vazias” e destrutivas... Assim são as comidas gordas de rápida absorção pelo organismo, os “fast-fritos”... ou o não afecto da televisão, a não possibilidade de viver a experiência e aprender com esta. Os produtos de hoje, alimentícios mas não só, são de absorção veloz e providenciam uma satisfação volátil. Colocam-se nas prateleiras do supermercado, nas imagens bonitas dos ecrãs e nos restaurantes decorados de forma prática e atractiva os meios para um agido, um acting-out que ganha consistência, por vezes, numa espécie de embriaguez (aparentemente) lúcida de calorias e produtos... Tapa-se um buraco interno psico-socialmente nutrido e regido? Come! Consome!
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Viagens, estrelas e jogos de vida
Por cada aventura deixo-me levar em ventos e correntes coloridas.
São vidas, murmura um velho perdido numa rua da cidade.
Por cada estação observo expressões: pressa, expectativa, temor...
Por cada segredo respiro fundo e no aeroporto das relações deixo-me estar.
Paris, Londres, Budapeste? Qual o destino? Qual a saída?
São mil e duas possibilidades...
Por cada astro que espreita na torrente escura de uma noite qualquer. Anónima.
Penso em ti. Nos muitos ti's que andam calmamente no palco do dia a dia...
Água doce, salgada, amor e partilha de ritmos coordenados uns com os outros. Às vezes.
Madrid, Torino ou Bruxelas? Qual o rumo? Qual o número do voo?
São mil cento e vinte e quatro as opções possíveis.
Por cada hipótese que se joga aos dados e no tabuleiro de xadrez quotidiano, perdem-se umas peças, ganham-se outras vezes de jogar. Encontra-se o desejo e a sua concretização, diferida ou não, numa conjugação da rainha com o cavalo, do seis com o um (nos dados), dos ouros com as copas... Vamos jogando, sempre vivendo...
No final saberemos se terá valido a pena.







