Sem grande inspiração. Sozinho no quarto. Não estás. Saíste com uns tipos quaisquer para te arranjarem uns colares novos, ou talvez uns perfumes. O telefone toca, interrompendo, por momentos, o som monótono e de embalo do termo-ventilador. Desligaram. Era um toque. Dois toques. Três toques.
Há imenso tempo que não jogo futebol. Marcar golos só simbolicamente ou, então, na horizontal. Aí, o que acontece é que não costumamos comemorar com um grito alto tipo “Golo!!”, nem tão pouco fechar e erguer os punhos. Talvez seja outro tipo de expressões que surjam, o rosto contraído de prazer e a voz, abdominal, a erguer-se de um fundo de uma cama a ranger. O som global vai ainda, contudo, depender da parceira.
Parceira de jornada. Não está aqui. Saíste com uns tipos quaisquer para te arranjarem uns colares novos, ou talvez uns perfumes.
Dou por mim a divagar, devagar, ou aceleradamente, sobre o desenvolvimento da inteligência emocional nos cães. Terá sido, para além dos infinitos cruzamentos de raças que para isso contribuíram, por identificação projectiva, na relação com os humanos, advogo eu, talvez em jeito de delírio, permitindo o desenvolvimento de novas vias de comunicação e uma propensão especial para a dependência dos afectos. Curiosamente, um cão não reconhece a mãe, tal como o ser humano o faz, mas reconhece e vincula-se ao dono e a outros seres humanos significativos.
A verdade é que são poucas as vezes que dou por mim com aquela curiosidade, que reconheço infantil, e que me fazia sonhar que um dia seria um cientista, daqueles que pudesse acrescentar um qualquer sentido para a humanidade. Fazendo inevitavelmente parte dessa humanidade, embora esquecendo, por vezes, perdão, omitindo, essa consciência de pertença e anestesiando-me entre os afazeres, preocupações e novelas quotidianas, já homem adulto, acho a curiosidade um bicho de difícil alimentação. Porque, à medida que crescemos, tomamos consciência de que, à escala global, somos infinitamente pequenos. Eis a benesse por sermos curiosos...
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