domingo, maio 14, 2006

Redundâncias cíclicas

Mais um domingo. Dia de balanço.
Copio um filme para o computador. Surpreendentemente ou não, a cópia não se efectua. O processo é interrompido pela existência de um erro. Especificação do mesmo: erro de redundância cíclica.
Pois é, nas nossas vidas, nas suas dramatizações mais ou menos histéricas em jeito de teatro, nas suas películas a cores e/ou a preto e branco e nos respectivos guiões que as acompanham encontramos muitos vezes a existência de erros por redundâncias cíclicas. Ora "tudo o que não se resolve repete-se", terá dito Freud - escutei eu através das palavras de um outro... Até nos computadores... um ficheiro copiado com erro, ou seja, mal integrado, quando se pretende a sua reprodução ou utilização de uma parte de si, acontece aquilo a que se chama um erro de tradução que, por sua vez, poderá desencadear uma repetição do encalha. Isto é, aquele que repete ciclicamente e redundantemente o mesmo agir e/ou procedimento de forma ineficaz... Ora o que acontece é que não podemos integrar nos dias de hoje aquela informação com a linguagem de hoje, transformando, no ser humano, experiência e emoção em pensamento. O erro porque passado, da linguagem do ontem e não resolvido, compele ao encrava no hoje... Seguimos Amaral Dias relativamente à questão do recalcamento. Lendo Freud e actualizando o seu texto de 1915 sobre a Repressão, Amaral Dias considera o recalcamento como uma falha de tradução entre camadas mnésicas de situações análogas, entre algo que se passou num determinado momento da vida e algo de semelhante que se passou noutro momento, mantendo a linguagem do ontem no hoje.
De forma pesada talvez, Pedro Paixão escreve em "Nos teus braços morreríamos" que "o passado persegue-nos até à morte". Uma visão do passado como objecto persecutório que gera ameaça, talvez até invocando um sofrimento, uma dor mental intolerável, muito difícil de metabolizar. As linguagens do ontem, mais as linguagens do hoje, anexas às linguagens das relações actuais com os padrões guardados das relações passadas são trazidas ao presente. Deparamo-nos pois, por vezes, subitamente com a constatação de que a capacidade de viver boas experiências e de dotação de sentido do vivido se coloca como uma espécie de realidade frágil e efémera...
Passamos então para a procura de um presente que tolere a linguagem do passado e as suas interferências, as suas rasteiras de regressão e/ou fixação. Abrimos os braços e o coração a pequenas luzes que prometem transformação. Orientamo-nos para um crescimento com aqueles que nos permitem ser somente nós, deixando cada vez mais, aos poucos, cair a máscara difusa e castradora tão útil quando nociva que insistimos em carregar... Crescemos. Aprendemos. Tropeçamos, mas conseguimos evitar as redundâncias cíclicas, pelo menos as mais destrutivas. Parece no entanto que, no momento seguinte, se fica meio perdido... É que o simples nem sempre foi aprendido. Neste sentido, a passagem da coisa à palavra é temida. É bloqueada ao mesmo tempo que desejada. É adiado o mental em detrimento do protomental... Fica qualquer coisa de intermédio à espera de dias melhores...

1 comentário:

Anónimo disse...

Erro da redundância cíclica, talvez...
Mas, nem sempre acreditamos na mudança e tornamo-nos resistentes até à exaustão...
E pensamos:
"Se sempre foi assim, porque é que há-de mudar?"
Assusta-nos o desconhecido, a descoberta, sentimo-nos indisponíveis para aceitarmos e apreciarmos tudo o que é novidade nas nossas vidas e, torna-se mais fácil ficarmos presos no nosso "pequeno" mundo...
Vivemos agarrados ao dia-a-dia normal, condicionados por nós e pelos que nos rodeiam...
Perdemo-nos em raciocinios que nunca mais terminam (como se a vida fosse uma sequência lógica de acontecimentos), julgamos-nos a nós e aos outros, sem na realidade percebermos o porquê...
Fazemos suposições, porque o outro nunca diz aquilo que pensa...
Tomamos decisões , fazemos escolhas livremente mesmo que de forma dolorosa...
E, caminhamos para o amadurecimento (mesmo que desiludidos com a percepção que temos das pessoas), ao mesmo tempo que nos vamos libertando de uma dependência que nos conduzia para uma repetição do encalha...