Sinto que escrever é um bom remédio. Para o tempo que ora passa depressa de mais. Para o tempo que se quita quase imóvel nos corações. Para a sede de viver. Para a fome interna. Para os senhores e senhoras que me têm acompanhado nos palcos trágico-cómicos do quotidiano e que me fazem sentir e sentir novamente. Proficuamente escrevo.
Escrever é um bom xarope. Para a tosse de cão, quando cobiçamos o osso alheio. Para a urticária, quando o problema são as comichões. Para a febre, quando os calores são irresolúveis sem concretizações adequadas. Pois é, o desejo insiste e persiste. Para a voz, quando urge a necessidade de cantar. Há quem diga que sou um cantador, ou seja, que canto a dor. Não sei. Mas, escrever é um bom analgésico para as dores. Para as dores de barriga, se estivermos com dificuldades em digerir o que foi para dentro. Para as dores de cabeça, quando a tensão devida ao aparelho de pensar termina e os vasos sanguíneos deixando de ficar energizados, decidem expandir e, no seu relaxamento, fazem doer. Para as dores dos ossos, estruturais por natureza. Para as dores nas articulações, quando o mais difícil são as ligações entre contextos, entre tempos - passado, presente e futuro. Para as dores nos pés - Édipo, e todos os homens de pés inchados, que caminham muito, ou mal, ou em condições talvez pouco recomendáveis – que aparecem de tempos a tempos.
Eu?
Escrevo para desinchar os pés.
E vocês?
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