Sentada à beira de uma janela, Inês respira o ar que ali chega. Passam carros e outros transportes de maiores dimensões. Inês gostava de partir para um qualquer lugar mais azul.
Olha-se ao espelho. Pergunta quem é. Não sabe bem, mas quer ser mulher.
Penteia os seus cabelos, ora com desprezo, ora com amor... Também é assim que se entrega. Fechada.
Quando se deita, enrola-se entre os lençóis e as almofadas, acalmando (ou abafando) pensamentos de jornadas quiçá monotónas e aprisionantes. Sente-se só. Como quase sempre.
Acorda a meio da noite. Levanta-se. Senta-se à beira da janela de todos os dias (mas porquê que tem de ser a mesma janela?), às vezes de madrugada. Passa um mendigo, uma puta ou outra. Inês não se deixa prender, nem fascinar. Mas tem curiosidade, quando vê um carro parar e uma espécie de diálogo/negociata se estabelece.
Inês não sabe o que quer. Mas, a janela, ainda que a tranquilize e que lhe mostre parte do mundo, cansa-a. Ela quer partir, para um qualquer lugar mais azul.
Imagina apanhar um carro, sozinha, ou com mais algumas partes de "Ineses" que representem liberdade, vida, sonho, sexo... Pensa ganhar asas para voar, não como anjo, como mulher.
Aquela janela não deixava, e o ar que ali chegava não era suficiente.
As dúvidas de desejo de um mundo mais azul dissiparam-se. Inês partiu. Nunca mais adormeceu, nem como puta, nem como sem-abrigo, pelo menos perto da sua janela...
Um mundo mais azul e, provavelmente, com mais ar puro/fresco/diferente esperava por ela.
"Chegou a hora de partir", sussurou àquele mundo que a acompanhara e que agora era cinzento...
"Chegou a hora de partir", responde a janela, a cama, o sofá azul, os cortinados que voam ao vento - e que não podiam deixar o seu lugar... O espelho também responde, sentindo, desde logo, a falta dos olhares felizes, triste, de raiva, dos gritos surdos de Inês...
(I) a história co(n)tinua num mundo talv(ê)z mai(s) azul para ela...
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