domingo, fevereiro 11, 2007

Cama

Chegado da capital de automóvel. Não vim a conduzir. E ainda bem porque não me apetecia. No caminho algumas dezenas de conversas... Éramos cinco. Queria ser eu, só. Precisava de um momento. Adormeci. Tive direito ao que desejava. Viajei em sonhos meio acordado pela condução algo agressiva de quem nos guiava. Quando despertei estava mais calmo. O meu corpo, contudo, parecia querer deixar-se ficar numa cama qualquer, desde que fosse aconchegante.

O aconchego chegou com o teu olhar. Partimos para um lugar qualquer, algo anónimo. Não me recordava do seu nome. Fomos jantar. De bom grado partilhaste a tua elegância comigo. Sentia-me quente. Preocupado, no entanto, quando me falaste daquilo que te tem feito perder o sorriso... Conversámos um pouco, muito, o que foi preciso, enquanto comíamos um fondue da Mongólia na sala verde do restaurante. Pedimos vinho. Alentejano. Quase sempre. Aquecemos. Os sorrisos voltaram depois de falarmos dos espinhos. Pudemos trocar rosas. Com amor, saímos do restaurante, embalados ainda pelo óleo quente que tinha estado a borbulhar à nossa frente. Demo-nos à chuva e à cidade. A pé percorremos as ruas calcetadas em busca da rua do conhecimento. Chegados à mesma, entrámos nas ruelas estreitas. As casas, cujas janelas revelam estendais protegidos por plásticos, sempre de improviso, estavam indiferentes à nossa passagem. Há vidas paralelas na cidade. Entrámos num daqueles sítios onde melhor se pode respirar o amor e a amizade, apesar de não haver uma única janela para a rua. Sentámo-nos. Whisky e licor beirão. Mãos dadas, corações abertos. Sem impenetrabilidades. Só intimidades. Nem todas ali à mão, mas sempre contidas pelos nossos sorrisos. E afectos. Aqueles que trazem o silêncio quando se começa a dedilhar a guitarra. Procuro, sempre. Num dia sim, num dia não... Ainda se canta a ambivalência, mas com menos intensidade. Parece que a noite está mais clara. Parece que o embalo se revela de pés mais assentes na terra, mas sim, o sonho é permitido. Pedra Filosofal, à meia noite ao luar. Contentamento nostálgico. Não há copos de vinho a sorrir esta noite. Mas há gente a sorrir, há gaitas transmontanas e galegas, há espanhóis delirantes pelo calor português. Há estrangeiros que se sentem em casa: nós, um com o outro, “porque afinal o que importa não é o modo como se ama, mas conhecer restaurantes e ser muito bom na cama...” (Pedro Mexia).

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