sexta-feira, fevereiro 16, 2007

(sóli) dão o que puderem dar

Recordo-me das tuas palavras meio soltas, por mim associadas, ontem, que me fizeram pensar no lugar da solidão. Tinha falado contigo, alguém que decidira habitar nesse lugar.
Argumentas que esse é o sítio do mundo onde podes ser. Talvez o único local possível. Por isso, talvez, também, tenhas essa necessidade de afastar todos aqueles que colocam em causa premissa tal, intelectualmente tão bem fundamentada. Eu fui mais um daqueles “uns” que às vezes se pensam mais que “uns” e que normalmente numa “manhã de puro inverno” se deixam, finalmente, cair. Tristes. E também sozinhos. Mas tu, não! Tu não dás a mão! Nem sequer o pé! Isso, apesar de dizeres que adoras pés! Ai sim? Mas tu gostas muito de alguma coisa??? Pensei que nada te chegasse!
Suspiraste quando te disse isso, referindo-me a outra mulher, também ela linda, sobre quem conversámos num dia de sol. Sim, porque tu admites que não estás habituada a partilhar. Sim, porque tu, do alto do teu charme de anos, me contas que passaram tantos anos e que eles e elas continuam a deixar-te sozinha. Ninguém pode contigo, ninguém aguenta, dizes tu. Ris quando te apetece chorar. Ris quando vês que todos partem quando tu chegas. Ficas atrapalhada quando as pessoas gostam de ti, assim, sem a partilha de um cabeção gigante de intelecto, só porque gostam. Confundida destróis vínculos, constróis instrumentos. A melhor defesa parece ser o ataque.
(Chove lá fora)
Poder-se-ia dizer, fantasiando, que seriam lágrimas. As tuas. As tuas. Aquelas que tu recusas chorar porque dizes que assim o escolheste. A solidão. O isolamento. Freud diz que esse é um caminho. Dizes que só a maternidade te fez sentir produtiva, construtiva. Até concebeste novamente quando te decidiste dedicar à pintura. Pintas a solidão a cores... mas cores sempre controladas por ti. Pareces, por um lado, querer tudo, absorver tudo, como se te vestisses sempre de preto. Por outro, é como se não quisesses nada e funcionasses como espelho reflector, sempre ornamentada de branco. Preto e branco, cores narcisicamente tingidas, uma paleta confusa e inconfundível.
Não sei, mas acho que prefiro viver mais tranquilamente.

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