domingo, dezembro 29, 2019

21/07/2018

E a tarde, instala-se. Os sons de pessoas mais ou menos encontradas ressoam na esplanada com vista para o anfiteatro. Recordou-me a Gulbenkian, talvez por haver também verde, mas é muito mais ruidoso. Famílias, amigos, amigas. E alguém, em bronze, imóvel, também na esplanada, suponho o poeta da terra. Talvez o anfiteatro, que está em frente, se encha de pessoas quando a noite desce para escutar os seus versos, pessoas vindas das sombras. Das sombras imaginárias. Estão todas naquele anfiteatro. Mas só quando a luz se for.
Ontem, inesperadamente, escutei Sérgio Godinho, na rua. A feira que agora há, tão perto de casa, é do norte. Há tantos anos, a norte de tanta coisa. Agora, teoricamente, nem tanto. Teoricamente, digo. Mas não tenho a certeza. Há um som agradável ao fundo. Até me apeteceria um cigarro. Talvez seja esta coisa de tentar apreciar a solidão. Ou tolerar. De repente, estou vivo e tenho sentidos. O lugar habita-me. Conjugo o olfacto - tostas mistas, árvores, tabaco ao longe e porventura o odor da cerveja. O tacto, o vento que passa pela minha pele. A visão não é o centro. As crianças também se fazem escutar naquela linguagem universal - "golo". Também parecem discutir algumas regras. E eu, onde estou? Talvez disperso entre tantos nadas. (A bola veio ter comigo). Preciso tanto de me fazer a sombra imaginária de mim próprio, de esperar que a noite caia para poder aparecer, sentar-me no anfiteatro e escutar o poeta... 

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