quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O retrato

"... No teu olhar sempre esteve qualquer coisa sem nome, uma ameaça submersa, um medo que ronda os sentidos.
Foi esse o teu fardo, todas as coisas que guardavas só para ti e que, aos poucos, te adoeceram a alma. Recordo-me que procuraste o deserto em todas as suas cores e cambiantes. Procuravas já uma cura para essa doença que te ruminava no ser, noite e dia, que te impedia o sono. Voltaste pior e não foste capaz de contar porquê. Eu vi. Fui eu quem te segurou a mão quando caíste, quem te limpou o suor da testa com panos molhados, quem te velou por muito tempo no silêncio e solidão do padecimento.
Aos poucos esse mar fez-se abismo, perdeu o fundo. Os olhos que tudo viam enclausuraram cada vez mais o mundo lá dentro, só para ti, com toda uma dor que não encontrava saída. Quando esbarraste no desespero não o soubeste dizer. Quando não encontraste opções não soubeste pedir ajuda. Regressaste ao deserto para nunca mais voltares. Quando todos os que te conheciam se admiraram, eu disse: mas sempre lá esteve, nunca o olharam nos olhos?"

Carlos Geadas, Os dias de um homem banal

2 comentários:

amora disse...

temo não saber o que dizer e, ainda assim, querer escrever. deixas-me dizer-te "bigada"?... por tudo e também pelas lágrimas e pelas legendas e pelas mãos. pelo espelho no olhar (com fundo).
mesmo. muito. gosto muito de ti!...

jd disse...

É bom guardar as pessoas que nos acompanharam/acompanham nos caminhos que fomos/vamos trilhando. De encontro em encontro, vamos serenando os desencontros e lembrando que temos, provavelmente, e de forma durável, um lugar nos bons lugares internos um do outro... Eu desejo que assim seja...